As despesas nem sempre cabem no orçamento mensal. Uma forma encontrada de pagar os gastos do mês é recorrer ao cartão de crédito, empurrando as contas para o mês seguinte. Apesar de ser uma estratégia para gerenciar os gastos, essa forma de lidar com os gastos é igualmente perigosa, levando muitas pessoas a terem receio de usar o cartão e se perguntarem: é possível viver sem cartão de crédito?
Para deduzir se o seu perfil indica se você conseguiria viver sem cartão de crédito, vale analisar as reais vantagens e desvantagens do uso dele e o seu nível de dependência. Embora ele seja a saída mais usada pelas pessoas para pagar despesas emergenciais, por exemplo, pode ser a porta de entrada para estimular o consumo compulsivo e o endividamento.
Veja abaixo algumas das vantagens e desvantagens no uso do cartão de crédito:
Vantagens
- permite que, de acordo com a data da compra, ela seja paga somente no mês seguinte;
- ajuda no parcelamento de longo prazo, quando não houve um planejamento prévio da compra;
- possibilita que você compre mais bens ou serviços ao mesmo tempo, por meio de diversas parcelas com pequenos valores cada;
- incentiva a participar de programa de pontos e trocá-los por benefícios;
- evita precisar andar com dinheiro em espécie (segurança).
Desvantagens
- risco alto de descontrole financeiro, gastando mais do que realmente pode pagar no mês;
- sujeitar-se ao pagamento mínimo e, assim, adquirir o passaporte para o crédito rotativo e o endividamento com os juros mais altos do mercado brasileiro;
- estimular a impulsividade, tendo o cartão à mão sempre que quiser comprar algo;
- limitação do orçamento mensal, pois, se você já tem parcelas no cartão, estará com seu orçamento mais “engessado” para os próximos meses por conta dos compromissos assumidos;
- o consumo desenfreado e o endividamento podem desencadear problemas emocionais, comprometendo as relações familiares e até o rendimento no trabalho.
Como não perder o controle das finanças
Sempre volto ao bom e velho planejamento financeiro. Muita gente se sente desconfortável em colocar tudo o que gasta no papel porque tem medo de qual será o montante. Mas a verdade é que, com ou sem dívidas, você precisa estar ciente de quanto ganha líquido por mês e quanto gasta no mesmo período.
Esse é o ponto de partida para analisar o que precisa ser feito e resgatar sua qualidade de vida, aprendendo a viver sem cartão de crédito, se essa fora a sua escolha neste momento. É claro que você também tem a opção de recorrer a um consultor financeiro pessoal, que vai estudar o seu caso e dar soluções de acordo com a sua realidade. Mas, para começar a mudar a situação desde já, separe a fatura de cartão de crédito – ou dos cartões, caso tenha mais de um – e veja quanto do seu salário está comprometido para pagá-los este mês e quanto já está comprometido com as parcelas dos próximos meses.
Quanto resta da sua renda para pagar as outras contas? Há alguma sobra no fim do mês?
Caso as respostas sejam positivas e se sinta confortável com elas, isso indica que você consegue controlar o uso do cartão de crédito. No entanto, se passa o mês no aperto ou chega a ter que escolher o que atrasar para o mês seguinte, é hora de rever seu padrão de consumo.
Além do balanço receita/despesa, o planejamento financeiro também precisa listar em que você utiliza o dinheiro para conseguir viver sem cartão de crédito. Identificar cada gasto revelará quais compras poderiam ter sido adiadas ou melhor negociadas para não pesarem tanto no bolso.
Lembre-se que somos estimulados ao imediatismo, à sensação de não querer perder uma promoção ou um item que está em alta para fazer parte dessa tendência. Entretanto, se você somar o quanto paga de juros quando atrasa ou não paga sua fatura, sua compra seria mais barata se apenas juntasse o valor para pagar à vista.
O crédito rotativo está melhor?
Não! A mudança do rotativo implementada pelas empresas de cartão de crédito em 2017 trouxe algumas vantagens, mas isso não quer dizer que você não gastará mais dinheiro. Os juros continuam altos, acima de 300% ao ano. No entanto, agora você só fica sujeito ao crédito rotativo por 30 dias quando não paga em dia. Depois desse prazo, as opções de pagamento do valor atrasado ficam sujeitas a taxas menores, mas a bola de neve continua.
Ou seja, se pagar o mínimo ou menos do que o total da fatura no mês, entrará no crédito rotativo. Na fatura seguinte, além das novas compras, você terá que pagar à vista o que deve ou aceitar o parcelamento desse valor. É aí que a chance de você se atrapalhar é enorme, além de ficar pagando juros sem sair do lugar.
Mas, afinal, como sair dessa e viver sem cartão de crédito?
Acredito que o principal ponto positivo dessa mudança é que você já sabe que terá que se acertar no mês seguinte de alguma forma. A taxa de juros no parcelamento não é das melhores, mas já é um incentivo para assumir o compromisso e quitar esse atraso. Já será um grande passo para conseguir viver sem cartão de crédito, caso você entenda que o cartão esteja atrapalhando seu orçamento.
Viver sem cartão de crédito ou não?
Se você quer sair dessa, precisa se preparar. Do contrário, não conseguirá viver sem cartão de crédito por muito tempo. O primeiro passo é, claro, o planejamento financeiro. Comece definindo um limite menor de gastos extras a cada mês.
Aliás, você sabe onde tem usado o seu cartão de crédito? Um exercício muito interessante é pegar sua(s) fatura(s) deste mês e a do mês passado e analisar:
- Em quais lugares eu mais costumo comprar? Será que dá para evitar gastar nesses lugares?
- Eu gasto mais em qual tipo de categoria (alimentação do dia a dia, lazer, combustível, roupas etc)? Obs: lembre-se que cartão de crédito é apenas uma forma de pagamento, assim como dinheiro, cheque e cartão de débito e não uma categoria de gasto.
- Eu costumo ser um “torcedor de fatura”? Como posso deixar de ser um?
Adote maneiras de gerar economia nas suas contas e, antes de comprar, vale o trio de perguntas:
- “Eu realmente quero isso?”
- “Posso pagar por essa compra?”
- “Eu preciso disso agora?”
Parece óbvio, mas se você quer viver sem cartão de crédito, tente usar o menos possível o cartão de crédito. Compras que você costumava parcelar ou mesmo só utilizar a opção de crédito poderiam ser pagas em espécie ou no débito? Uma vez que comece a fazer isso, terá que acompanhar mais de perto o seu saldo bancário e os compromissos de cada mês.
Se você tem muitos cartões de crédito e tem medo de se livrar de todos ao mesmo tempo, deve inicialmente ajustar as datas de vencimento. Elas devem estar próximas do dia que recebe seu salário, considerando algum tempo a mais para compensação ou mesmo atraso do pagamento. Mas certifique-se de que essa data não seja tão distante assim, para não correr o risco de gastar essa quantia antes de quitar a fatura.
Procure manter só um cartão. Cancele aqueles de lojas, que você usa de vez em quando, mas tem que pagar anuidade e tarifas. Ou pior, resistir à tentação de fazer novas compras ao pagar a fatura diretamente na loja (quem nunca fez isso?). Deixar de usar o cartão do estabelecimento faz com que você tenha uma noção maior do quanto pode gastar. Lembre-se que o cartão de crédito não é um dinheiro extra além do seu salário!
Outra opção é partir para o cartão pré-pago, que já tem um limite. Mas siga a mesma linha, da necessidade do controle dos gastos, ou acabará gastando mais do que pode ao colocar dinheiro nele desenfreadamente.
Dívidas
Se você já está enrolado, o primeiro passo para sair de dívidas e viver sem cartão de crédito é se organizar para criar uma reserva todo mês só para pagar o atrasado. Partindo desse preparo, você fará o seguinte:
- entre em contato com a empresa de cartão de crédito e negocie uma forma mais atrativa para conseguir firmar o compromisso. Se assumir um parcelamento e deixar de pagá-lo, os juros e as multas podem voltar às taxas do início, extremamente elevadas;
- pesquise opções de crédito consignado ou bancário e veja quais taxas são praticadas. Assim, você fará uma transferência de dívida. Paga o que deve no cartão de crédito e assume as parcelas do empréstimo feito em outra instituição, porém com taxas bem menores.
Não caia na furada de pagar a fatura de um cartão de crédito com outro ou usar o limite da sua conta bancária para tal. Os juros do cheque especial são os segundos mais altos do mercado, acima de 290% ao ano, atrás apenas do próprio cartão de crédito.
Ao abrir conta em um banco, eles forçam a chamada venda casada, incentivando a fazer um cartão de crédito. Mas você não é obrigado a aceitá-lo!
O mesmo para os estabelecimentos comerciais, que apelam para opções de pagamento aparentemente mais atrativas. No entanto, se você fizer as contas entre anuidade, tarifas e a dor de cabeça de controlar mais um cartão, já elimina qualquer vantagem para quem quer definitivamente viver sem cartão de crédito.
Ao aprender a pagar as contas à vista e ter um planejamento das finanças, o alívio de não ter compromissos pendentes valerá mais que qualquer cartão de crédito!